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2 de set de 2011

Lembranças

Deitada agora naquela mesma cama antiga ela lembrava de tudo, como um flecha que acerta um alvo todas aquelas lembranças bateram em seu coração assim que entrou naquele quarto.

Ao abrir a porta o cheiro forte de mofo penetrou seu corpo e a deixou mais tonta do que já estava.

Olhou em volta, ele agora parecia bem menor do que quando tinha apenas 9 anos e se mudou para aquela casa. Na época seu pai acabara de falecer em um acidente de carro, então ela, sua mãe e seu irmão se mudaram para aquela antiga casa, para aquela nova cidade.


Ela não tinha nada a reclamar do local, lá havia feito muitos amigos, estudava em uma boa escola, lá teve seu primeiro namorado, sua primeira decepção, seus primeiros pensamentos de liberdade, suas primeiras restrições, as primeiras responsabilidades, os primeiros fracassos, os primeiros sonhos, as mudanças de ideia e os amores, que sempre parecem bem maiores do que realmente são.


Estava enjoada graças a quimioterapia, seus cabelos começavam a cair, logo os seus cabelos que ela tanto gostava.

Dava mais uma olhada em volta de seu quarto, provavelmente seria a última vez que o veria, apesar de todas as palavras que todos a diziam, que aquela era só mais uma fase e que iria superá-la assim como superou a todas as outras doenças que já tivera, mas ela sabia, dessa vez era diferente.


Alguns barulhos vindos do lado de fora da casa a chamam a atenção, por uma pequena varanda que havia em seu quarto ela conseguia ver a rua de sua casa, buzinas de carro a perturbavam pioravam sua constante dor de cabeça, do outro lado da calçada ela avista alguns de seus antigos amigos. Não que eles brigaram e não eram mais amigos, mas provavelmente a esse ponto eles não deviam mais lembrar de sua existência, deviam se perguntar se ela já havia morrido.



Com os olhos mareados ela caminha até sua "cápsula do tempo", uma caixinha enfeitada com caveirinhas e corações que uma vez uma amiga lhe dera de aniversário. Era nessa pequena caixa que ela guardava suas lembranças mais fortes, todas aquelas que havia juntado em seus 15 anos de existência, o de mais importante que ela queria levar para a vida toda.

Dizia a todos que aquelas coisas só poderiam sair daquela caixa quando tivesse quarenta anos para mostrar para seus filhos e chorar ao sentir aquela nostalgia boa.

Mas agora era sua última chance de sentir tal nostalgia, de chorar de saudades de abrir aquela caixinha e revelar mais uma vez aquelas lembranças.
Então lentamente ela pega a pequena chave, roda pelo cadeado e abre.


A primeira coisa a ver é uma camiseta vermelha e amarela que havia comprado com seus amigos na praia de Copacabana, nela havia a assinatura de todos que haviam participado da excursão, ao ver cada nome borrado de caneta uma lágrima derramava de seus olhos.

Lembrou daquela noite, com apenas 11 anos de idade ela e dois amigos riam dos outros que tinham caído com roupa e tudo no mar, estavam ensopados e já era hora de tomar o ônibus para voltar para a casa, ela e seus dois amigos não conseguiam parar de rir até que com um baldinho de criança que fora abandonado ali mesmo na areia os ensopados juntaram um pouco de água e os molharam também, molharam não, ensoparam.

Em vez de sentir raiva pelo feito eles simplesmente riram mais ainda.
Na volta de ônibus eles jogavam jogos enquanto todos assinavam a camisa dos outros, para ter algo para se lembrar de sua primeira viagem com amigos daqui a muitos anos.



No canto direito da caixa havia em um pequeno plástico um fio de cabelo quase imperceptível. Aquele fio de cabelo pertencia a sua cantora preferida, de quando ela havia ido ao seu show a dois anos atrás, até hoje não conseguia acreditar na sorte que tivera em conseguir pegar aquele fio.
No auge do show a cantora e o guitarrista da banda se atiraram na plateia e com sorte enquanto eram levados pela multidão ela e sua amiga arrancaram fios de cabelo dela, na confusão o único que restara era aquele que se encontrava na sua mão agora.
Isso a faz lembrar do que mais amava, ouvir o CD que fora apresentado naquela turnê enquanto pensava no futuro.

Metade disso não poderia mais ser feito, mas pelo menos o CD ela colocou para tocar no antigo som que havia ganhado de seu pai um pouco antes de sua morte.

Era impressionante como aquele som ainda estava funcionando, ela o usava praticamente todos os dias, mais impressionante ainda era aquele CD todo arranhado pelo uso ainda estar tocando.


Mais para a esquerda espremido estava seu pequeno álbum de fotos, pretendia colocar mais fotos ali com o tempo, mas esse passou mais rápido do que ela imaginara e agora não teria mais chances.
A primeira foto era dela em sua antiga escola de música, com seus amigos todos abraçados e jogados em cima de um puf.
A segunda era mais antiga, da época que morava na sua cidade natal no interior de São Paulo, uma típica foto de formatura, em sua pequena beca de quando formou na primeira série.
Logo depois vinha uma foto sua e de uma amiga fantasiadas de Mário e Luigi enquanto uma fingia chutar a outra por causa de um cogumelo que a outra estava comendo.

Outra foto mostrava ela e seu primeiro namoradinho quando tinha doze anos abraçados, ao ver essa seus olhos lacrimejaram novamente, ela ainda não havia o esquecido apesar de saber que ele já esquecera ela a muito tempo.

Em um momento se arrependeu por cada palavra dita durante uma briguinha que tiveram, a maioria não era verdade incluindo o fato dela ter dito que seu coração não batia mais forte por ele, nem por ninguém.



Mais ao fundo da caixa estavam em uma sacolinha plástica de sua livraria preferida cartas escritas por sua amiga, elas tinham mania de trocar cartas, agora se perguntava se sua amiga também guardava todas aquelas cartas que ela havia lhe entregado, entre todas essas cartas aonde uma amiga abria o seu coração para a outra estava mais uma carta em que um antigo amigo havia aberto seu coração, uma antiga declaração de amor, de quando ela ainda estava na quinta série. Mesmo sendo a tanto tempo ela ainda se arrependia da maneira fria que tratou esse amigo, um dos poucos que realmente se preocupava com ela na época.

Mais a fundo no mar de papeisinhos dobrados com caligrafia de carta ela encontra um mais amassado ainda, daquele ela não se lembrava, diferente das outras que foram escritas com capricho essa estava toda borrada com letras tortas e infantis, ao ver a data rabiscada no verso ela se lembra: essa era uma página arrancada de seu antigo diário, mas não era qualquer página de qualquer dia, era um desabafo, um pequeno desabafo que havia feito aos nove anos assim que soube que seu pai havia morrido.

Leu aquilo com relutância, o dia mais triste de toda sua vida estava relatado em um pequeno papel rosa com desenhos de borboletas azuis.


Na caixa encontrava-se mais lembranças, como um tubo de tinta de cabelo que havia usado aos doze quando pintou seu cabelo escondido, e junto uma foto do estrago que havia feito.
Vários canhotos de ingressos de shows e sessões de cinema inesquecíveis, não só pelo que estava passando na telona mas também por quem estava ao seu lado.
Bilhetinhos trocados com seus amigos durante as entediantes aulas, seu antigo caderno de música, a cabeça de um ursinho de pelúcia que havia disputado com seu primo quando ainda tinha apenas 6 anos, e para o tristeza de todos o rasgara ao meio.

Sua coleção de adesivos que havia abandonado quando ainda havia 10 anos.

Um exemplar de sua revista favorita, o melhor de todos na sua opinião, um mangá, um toquinho de lápis de olho, uma meia causa rasgada e toda furada com cigarros que roubara de seu vizinho no ano passado e dois envelopes, em um deles se encontrava uma cartinha feita por seus amigos e colegas de classe todos desejando melhoras ou dizendo que sentiam sua falta, essa havia entrado na cápsula a pouco tempo mas parecia um passado tão distante de agora.

Isso a fez lembrar de um dia de aula, um de seus últimos dias.

Ela sempre havia sido uma garota problemática, até o dia que descobriu que mais um problema iria destruí-la, ela tinha leucemia e já estava em um estagio avançado da doença, nesse dia toda a revolta de uma vida bateu de uma vez, não era algo passageiro dessa vez, ela nunca iria a faculdade, ou ter filhos e casar-se, ela sabia, mesmo sabendo que tinha chances ela sabia que não iria viver por muito tempo, aliás tinha essa sensação a muito tempo.

Disfarçava que estava mal, era a piadista da sala, brincalhona que só vendo, só contou sobre a doença para os amigos mais chegados que juraram não contar a ninguém.

Até o dia em que estava em uma aula de ciências, sua matéria preferida e aos poucos desfaleceu naquele chão frio coberto por mochilas.

Desde então não voltou mais a aula, um de seus amigos encarregou-se de contar a todos o que estava acontecendo, então recebera aquela cartinha de seus colegas.


A outra carta diferente das outras não era de um amigo ou de muito tempo atrás, era uma carta que ela havia escrito para si mesma, para ela ler daqui a 25 anos, quando supostamente iria abrir a cápsula para examinar os objetos.

Nela havia instruções de ideais a serem seguidos, clichê mas bonitinho, como queria abrir essa caixa aos 40 anos.

E cobrindo o fundo da caixa havia uma antiga blusa de seu pai, que por alguma razão mágica ainda havia o seu cheiro, o cheiro que ela sentia quando avistava um grande amigo, mais que um amigo, uma grande inspiração.

Colocou tudo dentro da caixa e com um pedaço de fita adesiva pregou a chave do cadeado na tampa, quem sabe um dia alguém achasse aquela caixa e ai lembrasse daquela garotinha que ela fora.


Pegou seu violão, como amava ele, suas mãos tremulas não tinham muita força para tocar, mas ela achou preciso tocar uma última música.

Não sabia qual de tantas músicas que amava tocar, por fim ficou com uma que ela mesma havia feito a um ano atrás, retratando a dor que sentia na época que seu antigo namorado havia a deixado, dor que não parecia nada comparada com a de agora.
Tocava aquela música pensando, na vida, na sua quanto no geral, será que era muito ruim morrer, será que a cirurgia iria doer, será que aquela seria realmente a ultima música que iria tocar, não conseguia acreditar nisso.

Deixou o violão no mesmo canto que sempre o deixava entre o armário e sua cama.

Pegou uma bolsa aonde colocou uma muda de roupa, suas meias preferidas, uma blusa confortável e uma calça de moletom que não gostava muito mas era a única que não iria incomodá-la.

Antes de sair e trancar o quarto excitou, deu uma última olhada naquele quarto que sempre odiara por ser muito infantil mas agora amava tanto, queria passar até seus últimos momentos ali, trancada, ouvindo seus CDs.

Caminhou até a porta de casa aonde sua mãe a esperava com o rosto abatido, ao -la disse palavras confortantes mas no fundo sabia que eram apenas palavras.

Uma última olhada na rua, aonde vivera grandes aventuras com seus amigos num passado que parecia mais distante a cada segundo.

Ao chegar no hospital entrou no quarto aonde tinha passado o último mês de sua vida lutando contra a doença que a consumia, a enfermeira que a tratava a um mês carinhosamente veio com seus remédios e um barbeador elétrico para raspar seus cabelos, sua cirurgia já era amanhã pela manhã.


Ao acordar não conseguia caminhar foi carregada até uma maca, estava bem pior agora, não conseguia pensar racionalmente tudo que via era figuras e olhares rodando por sua volta mas sabia que tudo ficaria bem, de uma forma sabia que se morresse naquela sala de cirurgia iria morrer feliz pois aproveitou ao máximo seu tempo de vida.

A anestesista a tocou suavemente e ela fechou os olhos, para sempre.
 
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